El Filete Porteño de Buenos Aires

Semana Tipográfica - Selo Horizontal

Durante a semana passada apareceram aqui alguns posts apareceu aqui um post relatando a viagem da colega que vos fala. Pois bem, não pensem vocês que foi por má vontade e por isso não escrevi mais. É tudo culpa dessa cidade que tem muito a oferecer, seja qual for o interesse do turista que a visita.

Entre os vários passeios todos orgulhosamente feitos a pé (!) e, nesse caso, fator que só contribuiu para a "descoberta" e posterior encantamento, percebi que a cada nova rua, em qualquer canto da cidade, um estilo de ornamentação que abrange tanto desenhos quanto uma tipografia específica insistia em aparecer. Composto de uma gama de cores que não passava despercebida, fui registrando tudo o que encontrava mesmo sem saber a origem, história ou conceitos que o envolviam. Para isso trago como contribuição para a Semana Tipográfica El Filete Porteño, que deu o ar de sua graça conquistando mais uma admiradora.

El Filete Porteño

Junto com uma imigração massiva que chegou a Argentina no início do século passado, três expressões artísticas desembarcaram junto: o tango, um estilo de comédia curto e o Filete. Cada um representando um aspecto da vida desses recém-chegados. O Filete ficou responsável por demonstrar a prosperidade no trabalho, por isso ainda hoje ele pode ser visto em meios de transporte como caminhões e ônibus, figuras ímpares da cidade, também em fachadas de comércios típicos.

A idéia de ornamentar meios de transporte surgiu entre dois garotos, Vicente Brunetti e Cecilio Pascarella, que em um dia qualquer de trabalho substituíram o que até então era o pintor dos carros. Tal pintor, dono de um estilo nada criativo de cobrir as carrocerias com um gris sem vida, viu seu emprego ameaçado depois da experiência dos dois garotos. A princípio, o impacto já era esperado assim como qualquer ruptura de cultura causa mesmo nos dias de hoje. Foi quando, no dia seguinte, donos de carrocerias faziam fila na porta da oficina, cada qual desejando o diferencial para seu negócio através das pinceladas nada convencionais.

No início, o desenho era composto pelo nome do dono, para o que seu negócio era orientado e sua especialidade, como verduras, leite, pão, etc.

El Filete Porteño - Fachada Ferreteria El Filete Porteño - Placa

O nome Filete vem do francês "filet", que quer dizer fio, linha, algo que acrescenta, a borda de uma moldura. Os pincéis usados nessa técnica também somam à definição, já que são materiais de pêlo comprido próprios para "filetear".

El Filete Porteño - Jean Jaurés

A base da técnica iniciava pela concepção do desenho desejado, incluindo todo o projeto harmonizando ornamentos e tipografia. Os mesmos eram representados sobre papel transparente e em seguida furados com agulha ao longo do traço. Aplicava-se o desenho sobre a superfície desejada e, friccionando carbono em pó dentro de uma meia de mulher, o desenho era transcrito para a posterior pintura. Os letristas sofriam por não poder usar o mesmo desenho dos dois lados, já que as letras possuem um único sentido; já os fileteadores se aproveitaram e por fim criaram mais uma característica do Filete espelhando um mesmo desenho sem o menor esforço.

Vários são os temas correntes dentro do Filete. Entre eles e, os mais comuns, estão as flores, personagens como o cantor Carlos Gardel e Evita Perón, as cores da bandeira argentina, animais, dragões e seres fantásticos. Mas deixemos os desenhos para um outro post. O que nos interessa para essa Semana Tipográfica é o desenho das letras, que não deixa de ser tão surpreendente quanto.

El Filete Porteño - Evita El Filete Porteño - Flores

A tipografia era gótica, chamada especificamente de "esgróstica", uma adaptação para o Filete que mescla o desenho desses tipos primitivos com a imaginação dos fileteadores. Essa talvez eram as únicas letras que disponibilizavam ao artista a representação forte, grossa, presente e colorida, comum no Filete.

El Filete Porteño - Cadeira Restaurante

Para se adequar à estética do estilo, foi incorporado um efeito tridimensional chamado de "repiqué". Mais tarde foram agregados os demais adornos extraídos dos desenhos.

Esse estilo tipográfico aparece unicamente nos elementos mais importantes, como as iniciais do dono e seu nome. Não se utilizava para escrever as "frases de pára-choque de caminhão", por exemplo.

El Filete Porteño - Feira de San Telmo

Atualmente é reelevante citar que os ônibus da cidade seguem utilizando o estilo no nome da empresa e no número que identifica qual linha o carro pertence.

El Filete Porteño - Traseira do ônibus

A partir do desenho das letras, os donos das carrocerias demonstraram interesse em representar frases. Os fileteadores de nada gostaram, já que a arte surgiu para ter continuidade entre os grafismos e uma frase seria um ruído às curvas e à harmonia as quais os artistas tanto prezavam. A inclusão de frases, dos mais variados temas indo do patriotismo ao machismo, eram de autoria exclusiva dos clientes.

Da mesma forma que o tango se alimentou das canções de campo para criar sua identidade, o Filete se inspirou na arquitetura da época, no formato das grades e nos grafismos dos bilhetes de ingressos e entradas. Em consequência disso, essa representação, como característica local, possui um charme único que preenche os olhos apenas se representado em seu berço. O contexto faz com que suas características sejam ressaltadas o tornando ainda mais atrativo e típico do que se fossem expostas em qualquer outro lugar.

Fonte: Livro "El Filete Porteño", de Esther Barugel e Nicolás Rubió.

Agradecimento especial ao Laino por ceder algumas de suas fotos. Algumas também são de minha autoria.

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6 comentários:

lflavios disse...

Oi Grase,

fui obrigado a comentar: tá sensacional este post...

grase disse...

Valeu Luis!
Apenas repassando minha admiração pelo Filete :)

Karla disse...

Esta arte porteña me encantou a primeira vista. Comprei várias plaquinhas desta arte para minha casa. Considero a melhor lembrança que pude trazer.

Sebas disse...

Olá Karla,

estive no El Caminito, Buenos Aires, e comprei várias dessas plaquinhas também. De tango a releituras de cartazes de cinema estão na lista.

[]'s

Anônimo disse...

Nossa fileteado e muito maneiro

virginia costa disse...

Mais um artigo exclarecedor sobre este assunto. Nao conhecia, ou melhor, sempre gostei mas nao sabia a origem ate fazer uma viagem recentemente a Buenos Aires. Tirei muitas fotos e comprei algumas plaquinhas. Hoje, procurando saber mais sobre esta arte antes de postar no meu blog, li tambem a respeito dos plagios. Coisa praticamente impossivel de se controlar. Enfim, o assunto e bem mais serio e extenso. Vou colocar somente imagens, sem me atrever a mostrar conhecimento sobre o assunto.
obrigada pela leitura
abraco
Virginia Costa
virginiacgaleria.blogspot.com

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