Quando em uma de nossas reuniões para traçar metas para o blog incluímos o projeto da
Semana Tipográfica, ficou sob minha responsabilidade (por livre e expontânea pressão!) escrever sobre espacejamento, entrelinhamento e afins. Pensei eu que era mamão com açúcar redigir sobre algo que se gosta. Ledo engano quando o tema é uma das principais ferramentas de trabalho.
Tomando por base Pensar com Tipos, de Ellen Lupton e Elementos do Estilo Tipográfico, de Robert Bringhurst, excelentes livros que recomendo,
reestudei estou reestudando o assunto e agora compatilho alguns dos tópicos indispensáveis para a análise e criação de uma peça.
De nada adianta um belo texto, escrito na mais culta das formas se nele encontram-se falhas no que diz respeito à
Tipografia e, em consequência, na
legibilidade. Um texto possui em sua mancha gráfica tanto os grafismos compostos pelas letras e pontuação, quanto os espaços em branco, que recebem igual importância no quesito legibilidade. Essa área negativa vai responder quanto um texto é agradável de se ler e quão bem foi composto.
As palavras, no âmbito da linguagem falada, recebem característica de texto fluido, sem pausas, diferente do que está no papel, onde aparecem inclusive sinais de pontuação. Tais espaços são fatores cruciais para legibilidade e harmonia visual.
O
Espacejamento surgiu com o alfabeto grego onde houve a necessidade de tornar as palavras unidades distintas e inteligíveis. Experimentelersequeressalinhasemespacejamentoepercebasuaimportância. A partir disso, a tipografia tornou o texto algo material com dimensões conhecidas e localizações fixas.
Pode-se falar em Espaçamento de uma forma geral, mas o termo Espacejamento é nomenclatura exclusiva do assunto Tipografia. O termo trata do espaço global entre as letras.
Dentro disso também está o
Kerning, fator responsável pela adição ou remoção de espaço entre pares de caracteres específicos. O espacejamento das letras
L,
T,
V,
W,
Y em conjunto com a letra sucessora na palavra podem causar ruído se o Kerning não receber devida atenção.
A Entrelinha ou
leading recebe esse nome em referência às tiras de chumbo (
lead) usadas para separar quando ainda se usavam tipos de metal. O
Entrelinhamento padrão que mais encontramos é um pouco maior que a altura da
versal do tipo, por volta de 120%.
Uma dica que torna o texto agradável é expandir a entrelinha-padrão, tornando mais leve. Mas cuidado com o exagero: distanciar demais uma linha da outra pode criar elementos lineares e visualmente distintos.
Outro elemento diretamente ligado à legibilidade é o
Alinhamento. Ele cuida da disposição das palavras e frases dentro de colunas. Pode ser justificado, à esquerda, à direita e centralizado. Cada qual traz benefícios únicos se bem empregados, mas também prejuízos em potencial ao design da página ou da tela se utilizados sem controle.
O primeiro traz bordas uniformes tanto na direita quanto na esquerda, por isso é recomendado para textos longos como em jornais ou livros. O cuidado a ser tomado nesse caso é a largura das colunas. Pode produzir vazios quando o comprimento da linha é muito curto em relação ao tamanho do tipo. A hifenização das palavras é um recurso que mantém os espaços sem denegrir a textura produzida pelo texto.
O alinhamento à esquerda é utilizado quando o objetivo é respeitar o fluxo da linguagem fazendo com que o olho percorra a linha até o final, mesmo que irregular, e retorne ao início da próxima onde a margem é fixa. É mau porque pode criar figuras irregulares ao longo da margem direita, causando desconforto visual.
Já o alinhamento à direita traz um grave problema por possuir sua margem esquerda irregular forçando o usuário procurar uma nova posição a cada nova linha de leitura iniciada. Cumpre muito bem sua função quando empregado em barras laterais, citações e outras passagens que comentem um texto principal.
Por último, o alinhamento centralizado é conhecido por aparecer em títulos, convites de casamento, certificados e até mesmo em epitáfios. É interessante limitá-lo a esses usos.
Ainda dentro do alinhamento podemos incluir o alinhamento vertical, terror de alguns designers quando relacionado ao quesito ergonomia, e fator estético diferencial para outros. Não há uma regra que determine que a leitura seja de cima para baixo ou vice-versa, apesar das lombadas de livros desenvolvidas nos Estados Unidos, principalmente, sejam feitas de cima para baixo. Pode-se usar ambas direções em conjunto também.
Com base nesses conceitos é sempre interessante ter um projeto tipográfico antes de iniciar a redação de uma obra. Já diz
Bringhurst em seu livro: "
Leia o texto antes de fazer seu projeto visual". A tipografia e suas "leis" estão aqui para contribuir com o projeto e, se bem estudadas e empregadas, tornam-se um diferencial em detrimento aos demais.