Cartazes Antigos de Propaganda Russa

Seguindo uma bela indicação da Grase, li o artigo Russian Vintage Advertising Posters, publicado no Dark Roasted Blend, que traz uma maravilhosa coleção de cartazes comerciais antigos russos. A coletânea apresenta peças de propaganda de produtos diversos, anteriores a revolução russa 1916 e também do período comunista. Prato cheio para adoradores da arte de comunicar por cartazes.

No período que antecede a revolução bolchevique, os hábitos de consumo da população russa era semelhante aos dos europeus. Isto refletia diretamente na qualidade dos anúncios produzidos.

automovel_show
O cartaz acima divulga um show de automóveis, mas Infelizmente não entendo absolutamente nada de russo para comentar o conteúdo da peça. Do ponto de vista estético, nota-se a legibilidade da tipografia, a qualidade no traço do desenho e a harmonia da composição. Um belo cartaz!

O seguinte é um anúncio de chá russo. Pintura realista, detalhes  em Art Nouveau característicos da época (ornamentos da moldura), boa combinação de cores, volume na tipografia. Este me lembra muito os filetes Porteños que Grase encontrou na Argentina.

chá
Na seqüência, dois cartazes dignos de uma parede (lá em casa seria perfeito): um anúncio de cerveja russa e um anúncio de kvas, bebida típica daquele país feita de pão preto fermentado.

cerveja1 cerveja2
No cartaz à esquerda, uma característica interessante da época chama a atenção. As garrafas de cerveja russa eram bastante diferentes das atuais: alongadas, de forma que lembra um cone de base pequena, com maior volume e tampadas por uma rolha. O saca-rolhas gigante  carregado  pelo arqueiro no lugar de uma espada, tem sentido partindo deste princípio. Pode parecer loucura, mas me pareceu uma alusão ao santo graal. No cartaz da direita, que mais parece uma propaganda de xarope Melagrião, a figura do simpático cavalheiro convida o consumidor a tomar uma caneca do saboroso kvas (nunca bebi, mas parece bom pela propaganda).

Anúncios cômicos também aparecem em cartazes daquele período. Repare na expressão do garoto abaixo, segurando um chocolate na mão esquerda e um porrete de madeira na mão direita. Ouse tirar o doce da mão dele! No cartaz seguinte, as lagostas trajadas como pessoas não estão ali por acaso. Note que há lagostas no prato que será servido pelo garçom. Seria isso canibalismo?

chocolate
lagosta
Instaurado o comunismo, concorrência entre marcas deixou de existir no país continente. Produtos não necessitavam de diferencial de qualidade para serem mais ou menos consumidos pelo público. O objetivo das propagandas, naquele momento político, era fazer com que o povo consumisse aquilo que era produzido, afim de não haver acúmulos e perdas nos estoques. Exemplos interessantes de anúncios para este modo de produção são os dois cartazes a seguir:

fume
coma_salsicha
"Fume cigarros" é a grande mensagem do primeiro. Não necessariamente da marca A, B ou C, o objetivo era simplesmente estimular o consumo do cigarro que estava pronto para ser distribuído. Deixando de lado toda a questão negativa do cigarro atualmente, não seria muito fácil vender algo assim. O exemplo seguinte convida as pessoas a comerem cachorro quente. Não é preciso ser um gênio para perceber que o cartaz pretendia estimular o consumo de salsicha. Fiquei imaginando quais seriam as razões econômicas e estratégicas desta "ação de marketing":
  • seria uma queda no consumo de salsichas, ocasionada por uma rejeição do produto, advinda de  uma super produção?! A população não suportava mais comê-las, e para evitar que estoques estragassem o governo iniciou uma campanha de estímulo;
  • poderia ser pela baixa nos estoques dos demais produtos alimentícios, restando apenas grandes quantidades de salsicha nos armazéns;
  • poderia ser pela abertura da primeira fábrica de salsichas da Rússia, e como não existia uma concorrente, a idéia a ser difundida era "Coma salsicha".
A produção industrial existia para suprir necessidades. Se existisse uma demanda de sapatos do tamanho 42, eram fabricados tantos sapatos com esta forma para supri-la. Geralmente todos eram da mesma cor (ou com poucas opções), pois a meta era para o tamanho e não para cores.

Os dois anúncios a seguir, são pérolas que mostram que a preocupação com o diferencial na conquista do consumidor, como belos cartazes de propaganda, eram coisa do tempo do Czar.

chupeta
garoto_bebado
Nos dois casos não consigo pensar em uma associação diferente da palavra "mostro" para as duas figuras que tentam representar o ser humano. Se você não captou o que o cartaz verde e vermelho anuncia, note que as nove peças pretas a frente da "boca" do monstro de mãos de fogo, são tipos de chupetas. Relevando todos os desastres cromáticos e de forma, você daria uma chupeta dessas ao seu filho? Com certeza sim, pois eram as alternativas que existiam na época. Na peça seguinte, aquele "velhinho" bêbado, vestido de criança, segurando um copo cheio de goró e abraçando o barril, é o garoto propaganda de uma "marca" genérica de suco. Assustador!

No artigo original existem vários outros exemplos de cartazes, além destes que citei. O texto merece uma lida minuciosa pois existem outros comentários interessantes do autor. Um ponto que me chamou a atenção é a importância da divulgação de um produto mesmo no mundo comunista. Acreditava que na Rússia de Lenin, Stalin e seus camaradas, existisse somente propaganda política. Além do contraste de qualidade entre as propagandas de produtos dos dois momentos, pra mim foi uma surpresa a existência delas após a queda do Czar.

Leia também Moscou: a rica capital dos bilionários para saber o que é um russo consumista.

Fonte: Dark Roasted Blend

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3 comentários:

Lella disse...

Como sempre, uma superação de criatividade e informação!
Beijos!

Jack disse...

Impressionantes esses cartazes!
Adorei seu blog

Sebas disse...

Lella,

sempre elogios, muito obrigado!

Jack,

esses cartazes dizem muito mais pra mim do que escrevi no post, são obras de arte :)

Dá uma passada na seção Cartazes e veja o que mais tem lá.
(Vale a pena, muita coisa boa!)

Muito obrigado pelo elogio e volte sempre!

[]'s

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